27 de Abril de 2015 por Lorrany Farias.

Brasília, 24 de abril. Público estimado: 200, público alcançado: aproximadamente 2 mil pessoas. Seria completamente normal, se o show não fosse dentro de um shopping com um micro espaço.Bater a estimativa não foi problema, tampouco o calor de quase 25º graus, apesar do ar condicionado.

Ana Cañas com seu amor nada velado por Brasília, conseguiu por mérito e luz própria tirar esse público gigante de casa numa noite de sexta feira. Garanto que ninguém se arrependeu.

Eram voz e violão, mais voz  e não existe equívoco algum – não me esqueci dos solos maravilhosos de guitarra, que também roubaram de nós, nossa perfeita atenção. Quase que uma afronta esquecer de comparar a voz dessa mulher à de Janis Joplin, juro que não é exagero. Posso dizer que a cada mínima-palavrinha-dita, Ana arrepiava todos os fios de cabelo existentes no corpo de quem ali estava. Presença de palco incomparável, falta muito nos artistas do nosso atual cenário musical. ”Brasília tem um público muito rock n roll”, ninguém se compara à você, Ana. Que show, que mulher, e que voz!

Ana sentiu-se nua sem sua banda em palco, nós, nos sentimos completos – apesar dessa falta que fez falta, sim! A SetList contava com sucessos de seu disco ”Volta”, sucessos antigos onde canta com o maravilhoso Nando Reis, e até nos envolveu com Raul Seixas. Não preciso dizer mais nada, Cañas diz muito só em cantar – e encantar.

E pra nos encher mais o peito, Ana  nos concedeu uma entrevista. O que não faltou foi carisma, amor, sinceridade e muita luz. Confira:

Tracklist: Ana, qual o sentimento de estar de volta à Brasília?
Ana Cañas: Tenho um caso de amor com essa cidade, adoro estar aqui. O público é super rock n’ roll, eu tenho uma saudade fodida mesmo. Eu queria tocar mais vezes, e agora vamos ver se com esse disco novo, empresário novo também, as coisas se aproximam bastante.

Tracklist: Sabemos que turnês em geral agregam muito na vida de uma artista – tanto pessoalmente quanto profissionalmente. O que você mais aprendeu ou tem aprendido nessas cidades que você passa?
Ana Cañas: A estrada é um reflexo da vida mesmo, como você falou. Acho que o que é mais magico, assim, primeiro eu vou às cidades que eu jamais iria se não fosse pra cantar. Então isso é muito louco, as vezes eu tô no interior do Mato Grosso, de Goiás, sei lá, do Sul, então isso já é meio mágico, você começa a conhecer os lugares, tem essa oportunidade de conhecer lugares que você não iria. Depois, as pessoas mesmo, a idiossincrasia do local, da cultura, das pessoas, a energia, é muito diferente de um lugar pro outro. É o que é mais mágico, acho que é não se prever a relação do público, isso é uma coisa que acontece na hora, né?! Então, isso é o que é mais mágico. A gente nunca sabe o que vai acontecer, isso é a minha profissão e eu sou muito feliz em ver isso, assim, porque não tem rotina, é uma loucura, acontecem muitos problemas na estrada também, você aprende a se virar. Hoje mesmo, cara, eu cheguei aqui pra fazer um show pra 200 pessoas, por isso eu topei fazer voz e violão, cheguei aqui e tinham 2mil pessoas.

4-16

 

Tracklist: Você acha que o caos em todas as suas formas ainda é a melhor forma de inspiração pra alguma criação?
Ana Cañas: Acho que depende do artista. Eu sou uma artista que sou muito inspirada por situações assim: caóticas, dor, separações, perdas, essas coisas. Tem muita música que é inspirada, mas tem muita música também inspirada por momentos de plenitude, de amor, de troca de positividade. Gosto das duas coisas, mas definitivamente eu sou, eu gosto do abismo. Eu tenho uma atração pela loucura. E os artistas que eu gosto também.

Tracklist: Ana, você é a poesia em forma de mulher: um mix de revolta, timidez, simpatia e sensualidade. Você acha que tantas qualidade são expressas através do seu trabalho, ou que elas forma um meio pra que te conhecessem a fundo como artista?
Ana Cañas: Uiiii! (sorri) Poxa, muito obrigada! Então, eu busco, eu fico feliz que o que eu sou transpareça no que eu faço, acho que pode ser que existam artistas que escondam uma coisa ou outra. Eu busco ser real no que eu faço. Se tem um problema todo mundo saca, se eu tô puta todo mundo saca, e se eu to feliz pra caralho todo mundo saca. Então, música é essa relação com o palco, assim, não fico escondendo nada. Não tem nenhuma mentira, essa coisa da ”diva” não, sabe essa coisa de ficar muito incrustada numa personagem não é muito minha cara, eu prefiro jogar a real. Pra mim é assim.

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Tracklist: O que você tem escutado ultimamente?
Ana Cañas: Puts! Violent Femmes, The Farside que é foda, A Tropical Past, Juiz Jorge o disco clássico deles juntos, o disco da Gal (Costa) de 69 que é foda. Ontem consegui comprar o vinil da Patti Smith – Horses, que fazia muito tempo que eu ‘tava procurando. Ah, eu escuto meio que sempre as mesmas coisas, sempre ouvindo Led Zeppelin. Tem banda que que eu to sempre ouvindo, e bom, eu tenho um namorado que é a enciclopédia musical ambulante, então eu tenho descoberto muita coisa com ele, assim, ele é muito culto, e ele pesquisa muita música então, de tabela eu tenho conhecido muito som por causa dele.

Tracklist: Pra terminar, qual a pergunta que você gostaria muito que te fizessem em uma entrevista, mas nunca te fazem?
Ana Cañas: Puts, hm… não sei. Talvez uma pergunta que não pudesse ser respondida, não sei.
Tracklist: Essa agora (risos)
Ana Cañas: É! Eu não sei. Talvez porque ela não exista, não sei, eu to num momento super transcendental, essas coisas assim. Não consigo imaginar uma pergunta que eu gostaria que me fizesse, e que nunca fizeram, porque ta tudo certo. E quando elas não fazem elas também estão feitas. Existem perguntas feitas no silêncio, assim, entre uma pergunta e outra sabe?!

Foto: Nilson Pereira

Foto: Nilson Pereira

 

Obrigado por ter voltado, Ana. E além disso, por ter feito da nossa última sexta feira, um programa para raros.

– Nenhuma palavra foi alterada nessa entrevista. Continuem acompanhando nossas notícias. 🙂

  • Texto: Lorrany Farias
  • Fotografia: Nilson Pereira

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