10 de junho de 2015 por Felipe Deliberaes.

Florence and The Machine - Topo Oficial 1
Desde “Lungs”, seu debut em 2009, Florence Welch era tão conhecida por sua coroa de flores e seus longos vestidos brancos quanto por sua música. Entre temas góticos e vitorianos, o visual e o timbre da britânica andavam lado a lado. Junto a Isabella Summers e uma série de colaboradores, Florence + the Machine compuseram dois dos álbuns essenciais da recente onda indie e estamparam as letras de seus milionários singles em uma parcela considerável dos perfis de redes sociais mundo afora.

Com uma pausa de mais de três anos, o hype para o lançamento de “How Big, How Blue, How Beautiful” prometia ser cheio de realces comerciais. Estariam Florence, Isabella e seus parceiros pensando em dar uma de Mumford & Sons e arriscar tudo com as novas-velhas texturas de um som mais popular, mais acessível? Ou será que o terceiro disco do grupo se limitaria a polir e combinar o melhor de “Lungs” e “Ceremonials” em uma espécie de coletânea definitiva, posteriormente retomando seu jejum musical por mais alguns anos?

Não sei se estas duas eram as únicas previsões cravadas pelos críticos – ou se sequer estavam em pauta – mas o material apresentado em “How Big, How Blue, How Beautiful” é o mais pessoal e reflexivo de todos, embora não economize nas metáforas religiosas e misticismo. Apesar de canções onde afirma ter um “terceiro olho da sabedoria” e onde pede para ser transformada em um pássaro, uma nuvem cinza e uma árvore (!), a vida pessoal de Florence nunca fora tão crua e clara como em seu terceiro disco.

Produzido por Markus Dravs, uma espécie de Max Martin do indie, o álbum traz camadas volumosas de sintetizadores, pianos, harpas e instrumentos orquestrais de sopro e cordas. Em determinadas faixas, Florence parece cantar só para si, como em “What Kind of Man”: o segundo single do disco começa quase como um sussurro e transita para um blues munido de trompetes e um riff de guitarra cirúrgico, acompanhando a história de um romance indeciso; Já “Queen of Peace” destila frustração e contempla metáforas como um sol que se põe e um barco que naufraga.

Em contrapartida, a faixa-título ferve com paz espiritual, nostalgia (“E cada cidade era um presente / E cada horizonte era como um beijo nos lábios”) e um encerramento triunfal de mais de um minuto e meio. A especificidade das duas faixas anteriores se transforma, aqui, em uma paleta de cores tão translúcidas quanto o horizonte que Florence canta, e a canção deixa de ser dela ao se mostrar tão identificável. Há, também, números mais transparentes: o dream pop de “Long & Lost” remete musicalmente ao último trabalho de Lana Del Rey, e “Caught” é infundida com soul sessentista.

A reta final de “How Big, How Blue, How Beautiful” apresenta o combo peculiar de “Third Eye” e “St. Jude”: a primeira traz um coro de esperança e motivação (“Você não precisa ser um fantasma / Aqui entre os vivos / Você é carne e sangue! / E você merece ser amada / E você merece o que lhe é dada”), enquanto a segunda atira todo esse carpe diem pela janela e clama pelo santo das causas perdidas (“Outra conversa sem destino / Outra batalha, nunca vencida / Cada lado é um perdedor / Então quem se importa com quem puxou o gatilho?”). O contraste é, no mínimo, desconcertante, e junto ao misticismo de “Mother”, que encerra o álbum, as três canções finais destoam em uma obra outrora bastante coesa. O indie pop excepcionalmente executado nas faixas bônus “Hiding” e “Make Up Your Mind” soariam muito melhores precedendo “Mother” do que a montanha-russa espiritual das atuais faixas nove e dez.

O absoluto ponto forte de Florence + the Machine, no entanto, vem com mil cavalos a mais de potência: a voz de sua frontwoman faz jus ao rótulo de carro-chefe do grupo e canta, sussurra, exclama, grita e tremula com sinceridade brutal. Florence traz em suas cordas vocais o respeito da indústria pop e a adoração da cena indie, e não tem pressa em decidir qual dos dois caminhos vai tomar – cada Taylor Swift no seu quadrado. “How Big, How Blue, How Beautiful” pode ser tanto um disco de encerramento quanto de transição; Florence nunca antes esteve tão confiante para galgar novos patamares, nem tão íntegra para afirmar “isto é o que sou” e pendurar a coroa de flores de forma definitiva. Só esperamos não precisar aguardar mais três anos pra descobrir…

Nota: 7.5/10

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