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É certo que há 21 anos, aqueles cinco skatistas magrelos de Santos jamais poderiam imaginar aonde chegariam musicalmente. Depois de infinitos hits que embalaram a juventude brasileira, turnês pelo mundo inteiro, prêmios importantes como o Grammy Latino (2005 e 2010), eis que as prateleiras recebem o 10º álbum de estúdio do Charlie Brown Jr, La Familia 013. Quisera eu, anunciar os caiçaras sem este grande pesar que trás todo álbum póstumo.

Depois de um DVD independente e contagiante, o novo trabalho é lançado com o selo da Som Livre (sim, há alguns anos isso já significou qualidade pra maioria dos ouvintes brasileiros). Apesar da superstição e sagacidade com os números, o álbum de 13 faixas que chegou no fim de 2013 com o número “013” junto ao nome (DDD da cidade deles) não demonstrou tanta sorte assim em algumas escolhas.

La Familia 013 é um álbum de altos e baixos, de extremos, de faixas que são, perceptivelmente, incompletas. Obviamente, seria covardia minha usar a coluna pra falar mal de um álbum em que o vocalista simplesmente não teve tempo de terminar, assim como é total covardia da gravadora lançar isso como um CD completo e não como um EP, por exemplo. Digo isso porque é evidente que algumas das faixas parecem ter a voz de Chorão em forma de pré-gravação, já que ele costumava compor uma música primeiro pela “frase chave” pra depois discorrer o resto da música. É válido ressaltar que o baixista Champignon teve sim esse tempo a mais em estúdio -e o usou muito bem- já que ainda estava vivo quando o álbum vazou.

O trabalho -muitas vezes sensacionalista- de mídia leva qualquer vogal cantada por Chorão parecer um grande presságio musicalizado, como se tudo fosse escrito como previsão de um álbum póstumo. Nesse clima o ouvinte dá o play em “Um Dia a Gente Se Encontra”, segundo single de trabalho – que caberia, sem nenhum exagero, em vozes contemporâneas como a do Pê Lanza- onde percebemos que a escolha da primeira faixa foi muito mais pela suposta “mensagem subliminar pré-falecimento” que o Chorão deixou do que outra coisa.

O reggae “Fina Arte” traz riffs e letras característicos dos rapazes de santos, é um dos pontos altos do CD. “Cheia de Vida” leva uma pegada mais hard-core, mas não tem tanto affair com os fãs quanto a próxima, “Meu Novo Mundo”. Essa carrega consigo algo místico que faz as pessoas acreditarem que uma canção de amor previu a morte de um dos maiores “hitmakers” brasileiros.

Eis que na 5ª faixa, “Do Jeito Que Eu Gosto, Do Jeito Que Eu Quero”, é latente a desconfiança de faixas incompletas, algo que foi finalizado por pré-gravações. É uma pena ver o ótimo refrão e o lado mais garanhão dos santistas não ter sido tão bem explorado assim.

Em “Rock Star” chegamos à melhor faixa do CD, uma canção dançante e com uma pegada hard-core a faixa é uma mistura de bate cabeça com fogo na pista que daria muito certo em shows. Após esse grande momento do álbum, “Vem Ser Minha” aquieta um pouco os ânimos, mas não baixa a qualidade. O segundo reggae do álbum e traz ainda uma levada de beatbox, já feita em outros álbuns. Não é destaque, mas é melhor do que as que os produtores pensaram ser destaque.

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A partir daqui temos uma gritante montanha russa sonora. “Hoje Sou Eu Que Não Mais Te Quero” mostra ao ouvinte uma vertente um tanto triste, sendo uma música mediana ou quase imperceptível em relação à “Camisa Preta”, que, muito pelo contrário, aponta outro ponto alto do site onde a banda se mostra mais viva que nunca. Riffs e solos monstruosos finalizam o som. Daí o clima mais calmo volta em “Vou Me Embriagar de Você”, onde vemos aquele ar de molecagem que surgira há duas décadas sumir completamente. “A Mais Linda do Bar” é a subida da montanha russa, trazendo uma proposta criativa de Blues/Country Rock e mostrando um lado do instrumental ainda não conhecido pelo público, além da letra gostosa de se ouvir.

As duas últimas faixas desplugam os cabos trazem uma pequena incógnita aos adeptos do presságio de Chorão. “Samba Triste” traz um clima bucólico acompanhado de uma melodia aletro-acústica, mas a letra deixa a desejar.  “Contrastes da Vida” não está como última faixa por um acaso. Nessa, é evidente a maturidade e experiência na letra, uma verdadeira reflexão levada totalmente acústica.

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La Familia 013 é um álbum que traz consigo experiência, malandragem, dualidade de sentimentos, mas, além de tudo, traz também o erro midiático em querer ligar tudo ao triste episódio com Chorão e Champignon ao invés de realmente aproveitar as melhores faixas que não transmitem exatamente esse sentimento póstumo. Esperava-se mais do último álbum de uma das melhores bandas nacionais das últimas décadas, considerando que agora estava com uma formação mais fiel à original.

Banda: Charlie Bronw Jr.;

Álbum: La Familia 013;

Selo: Som Livre;

Nota: 6,5/7,0.

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