24 de junho de 2015 por Matheus Ramos.

GuelãDepois de dois CDs de inéditas pela Som Livre, um DVD com ninguém mais e ninguém menos que Caetano Veloso e alguns prêmios guardados em casa, a baixinha Maria Gadú não para. No último mês a cantora surpreendeu a todos e lançou “Guelã” nas prateleiras e nas plataformas online.

Deixando um pouco de lado o violão e adotando a guitarra (uma Firebird bem chorona) e uns sintetizadores, o trabalho é claramente intimista e conceitual, mas traz consigo um leque de influências muito bem definidas. Entre uma viagem de timbres e instrumentos que tentam ser reducionistas em comparação ao rock e ousado em comparação à MPB, Gadú mistura um “quê” eletrônico à la Ghost Stories (Coldplay) com um gingado todo especial que, em uma ou outra faixa, lembram Caetano Veloso (com o qual esteve trabalhando no DVD passado) e Daniela Mercuri.

Os contrabaixos bem definidos abriram um sorriso de criança no meu rosto, me lembrando que ninguém sai de casa pra ir à Toca do Bandido (estúdio famoso com nomes como O Rappa, Skank, Raimundos etc) gravar atoa. Não há “baixofobia” aqui, como outros produtores brasileiros costumam fazer. Isso realmente faz diferença. As guitarras sabem o que estão fazendo e carregam um timbre gordinho de Gibson, porém limpo ou com uns delays bem modernos e expertos. A percussão varia entre o eletrônico, o tradicional do rock e alguns elementos do samba (como em ““), e a versatilidade é tão nítida quanto necessária. Teclado e violino também se intercalam pelo disco, harmonizando tudo o que ainda faltava.

Todas as letras são rebuscadas e abruptas, e trazem consigo uma fórmula mágica para deixar o modo de repetição ligado até que você entenda o que é “Ela”, ou o “Tecnopapiro”.

Como ponto negativo, vejo o tamanho da obra. São apenas 10 faixas, considerando que 3 são praticamente interlúdios ou algo nesse mesmo raciocínio, restam pros fãs apenas 7 faixas rápidas, todas com um tempo médio de três minutos (com exceção do poema musicado “Trovoa”, de quase seis minutos). Parece-me minimalista e até arriscado pra cantora que disse querer tirar “Shinbalaiê” do setlist dos shows. Fora isso, todas as outras tem um grande potencial que samba entre trilha sonora de novela a grandes shows.

Em suma, temos um disco minimalista e intimista, porém ousado, cheio de atitude e verdade. Vale a pena conferir Guelã, de Maria Gadú.

Maria Gadú

Em miúdos:

01 – Suspiro: A faixa inicial é um convite a entrar numa nova ótica da própria Gadú. Após brincar de Dream Theater com 2min14 (aliás, o CD todo está cheio dessas pegadinhas que vão fazer o ouvinte comum querer passar a faixa) numa introdução instrumental que já deixa nítida qual será a linha de segmento para as timbragens de todo o disco.

02 – Obloco: A segunda faixa traz uma brasilidade incontestável. Maria Gadú apresenta seu bloco democrático em curtos 2min16, onde consegue te cativar com o show de percussões que contrastam com uma guitarra expertíssima. Foi a primeira faixa divulgada e promete funcionar muito bem nos shows.

03 – Ela: Aqui está um dos pontos mais altos do disco. A cantora traz uma letra que mistura uma espécie de devoção romantista envolvida por um lirismo sutil e usa dessa ferramenta pra descrever:  Alternativa A) Uma entidade; B)Uma parceira da cantora; C)A própria Gadú (não se sabe qual alternativa está correta). O delay moderno da guitarra te faz esquecer que nenhuma base percussiva está envolvida na melodia. Com um refrão forte, essa faixa também tem um “quê” de trilha sonora.

04 – Semi-voz: A quarta faixa é realmente uma dádiva melódica. Além da letra graciosa que deu muito certo na voz da nossa menina, temos uma introdução que lembra bem de longe alguma timbragem do City and Colour, que depois se torna alguma coisa hispânica ou argentina (ainda estou na dúvida), e aí entra o violino que confirma essas influências. Quando a gente pensa que acabou, rola um momento baladinha entre o contrabaixo e a percussão, que deve agitar as apresentações da turnê.

05 – Trovoa: O poema de Maurício Pereira parece ter sido feito para a voz da própria Gadú. Mais uma vez se confirma o romantismo (no sentido de corrente literária mesmo) no álbum. A faixa mais longa também se mostra como uma das mais preciosas da obra, porém sem aspecto de single.


11196320_10153804045307166_6246739031674749252_n06 – Sakédu:
Aqui acontece novamente um daqueles momentos que parecem desnecessários no CD. Não que não seja realmente belo ouvir esses claps misturados às vozes com reverb, mas um interlúdio com quase três minutos? É um ponto negativo na perspectiva do ouvinte.

07 – Tecnopapiro: A sétima faixa traz, de uma forma bem humorada, uma homenagem à progenitora da cantora. Comparam-se, aqui, as gerações. Essa dicotomia entre o analógico e o digital são envolvidos por um groove maneiro e um arranjo vocal que varia do grave ao agudo desafiando a voz da Maria, mostrando versatilidade.

08 – Há: Outra boa faixa está aqui. A influência de cantoras brasileiras fica nítida, como da –já citada- Daniela Mercuri (na primeira audição eu pensei que fosse a própria ao final da música). A forma como guitarra, percussão, groove e axé se encaixaram é curiosíssima. Pode ser outro ponto alto do show.

09 – Vaga: Aqui está a faixa mais bonita do CD. Maria Gadú me fez acreditar que uma desigualdade social exacerbada a ponto de ter um flanelinha na lua seria algo bonito. Brincadeiras à parte, a letra é uma das melhores do álbum e brinca com o timbre único da moça. Um violino muito bem colocado em meio à percussão eletrônica se casa com a guitarra (essa, mais uma vez, com uma cara gritante de Ghost Stories). É uma pena que provavelmente nem entre nos setlists da turnê.

10 – Aquária: Aqui se vê mais uma daquelas faixas com cara de interlúdio. A despedida é sútil e curta, mas dá aquela vontade boa de ouvir o álbum todo novamente.

Temos aqui um CD curto, porém intenso e cheio de resignificados pro termo “brasilidade”.

Ainda não ouviu? Confere aí:

Pra adiquirir o CD, basta clicar aqui.

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